terça-feira, 23 de junho de 2020

Abraços

Fico tão feliz por você.
É verdade, eu fico mesmo. Mas eu sei que você sabe.
Você deve agora viver em paz, na paz que você sempre quis ter e achava ter encontrado. E eu fico feliz. 
Você ama e é amado incondicionalmente, com todos os seus tiques, manias, trejeitos, perdidas e piscadas. Eu sei que é. Tenho certeza disso. Me enche de felicidade saber que recebe tudo que sempre mereceu. Do jeitinho que eu imaginei que seria. 
Você sabe também, que isso é tudo que eu sempre quis. 
Como me doía não conseguir representar esse papel com perfeição. Querer a perfeição foi, exatamente aqui, meu assassinato. Aqui, eu matei e eu morri. 
Como doía não estar em paz como você. Com você. 
Eu, agora, continuo em guerra, mas você... você encontrou o retiro.
Você encontrou em outra alma, outra quentura, outro coração que batia rápido, no mesmo ritmo, com a mesma desenvoltura. A poesia leve e gráfica que você já conhecia mas não sabia que podia ser sua, e agora te emoldura
- em tons de terra, verde e mar. 
Ressenti que fosse mais leve, menos pesada, pequenina e tão grandiosa. Ressenti, porque era só o que havia em mim. Não havia mesmo, mais nada, porque amor - o próprio -, dele não sobrara. Foi todo embora, escorreu por uma sarjeta suja. A flor da juventude encontrou a luz e o fim, tudo na mesma noite. 

A noite é eterna e o tempo não importa mais. 

E então não ressenti mais, porque o amor renascia em você. O amor era novo, fresco e tinha cheiro de verão. Renascia em você, mas germinava em mim, o alívio do seu cuidado. 
Se a dor fosse sua, ah sim... eu já estaria mesmo no fundo do mar. Mas você nem sabe o motivo de eu não me jogar, sabe? 
Essa ferida não é sua, nunca foi.
A água salgada burbulha de vida, te convida pra nadar. 
Eu sento na beirada e cravo os dedos na areia, cavo uma ferida rasa, mas dessas que a onda preenche. Observo como você nada, nada, nada lá longe. Eu ainda te vejo no horizonte, eu posso ouvir sua risada, porque você nunca teve medo de ser feliz. 
Eu poderia continuar aqui te olhando, cavando. Mas já quase não dá pra te ver. Agora você tá longe demais... Ou será que sou eu? 
Sentei aqui por tanto tempo, nem vi que já havia anoitecido. 

Pois eu me levanto agora. Ando com minhas próprias pernas, me levo embora, sozinha, pela primeira vez. Verdadeiramente sozinha, mais sozinha do que nunca. Como era pra ser. Mas quando lembro de você... fico feliz. 

A felicidade é tão grande que não cabe em mim.

E isso... Só isso mesmo que eu queria falar. 


don't worry

Don't worry bout me
It's all over now
Tho I may be blue
I'll manage somehow
Love can't be explained 
can't be controlled 
One day it's warm
next it's cold

- 'Don't Worry ', Marty Robbins (1961)

1

Tenho tanta vergonha de mim. 
Seria bom se não tivesse, né?
Tem dias que tô um nojo, quero me gabar e falar de tudo, quero me mostrar inteira e ser tocada, ouvida e sentida. Eu acordo com ressaca da exposição no que já parece menos outro dia, e mais outra vida.
Quero mudar tudo de novo, resignificar todas as minhas palavras.
Tô pronta pra me reinventar, pra não ser mais eu. Só que na verdade, o que eu mais quero é ser eu, só. Quero só ser eu, só. E eu venho com a bagagem, né?
Uma bagagem pesada que parece pesar só na minha balança, na minha e de ninguém mais. 
Mas é suficiente, se sou só eu sozinha, o peso É meu e de mais ninguém. Eu devia estar mais forte pra conseguir carregar, mas a idade me enfraquece ao invés de fortalecer. 
Queria me entregar inteira, pra ser tocada inteira, mas algumas músicas eu já não quero tocar.
Deu, né? 
Aí vai ficando, ficando assim... envelhece. 
Dias que vive, dias que morre. 
Essa noite eu sonho de novo. 
Amanhã eu acordo. 
Em que corpo? Em quem? 
Onde foi que eu me perdi? 

sábado, 20 de junho de 2020

Love, mom.

"Sometimes, he thought, real love is silent as well as blind."


- Stephen King, The Stand

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Feliz

Feliz por tudo que passou
Ela estava feliz por tudo que viveu
Ela estava feliz por tudo que viu
Ela estava tão feliz por todas as coisas que experienciou
Ela estava feliz
Ela se sentia bem
Ela se sentia tão bem
Ela se sentia tão, mas tão, mas tão
Bem
Sentiu tudo de uma vez
Ela se sentia tão
Mal
Ela desejava não ter vivido
Ela queria vomitar
Ela desejava não ter vivido
Ela desejava não ter falado
Ela queria não ter sentido
Ela podia não ter ido
Ela sabia que tudo não passava de
Um grande mal-entendido
Ela queria entender mas agora...
que ela entendeu
Agora...
Agora...
Ela entende além e vê além e o que vê é tudo...
Triste
Tão triste

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Noite - Ext.

Dizem por aí que é bom olhar pra dentro
Mas às vezes a gente olha demais
é bom parar um pouco e olhar pra fora
o que é exterior à nós
outras vidas, outras janelas, outras histórias
exercitar a distância do olhar
os músculos oculares estão atrofiando
o coração está a ponto de rasgar
cansei de estar aqui dentro
hoje eu vou olhar pra fora, as árvores, os carros e as janelas
a geometria das construções
o silêncio de uma noite vazia e corações apertados que
se olham de longe
e não dizem nada


quarta-feira, 10 de junho de 2020

isolamento

De que adianta me isolar do mundo
se não consigo me isolar dos meus pensamentos