É verdade, eu fico mesmo. Mas eu sei que você sabe.
Você deve agora viver em paz, na paz que você sempre quis ter e achava ter encontrado. E eu fico feliz.
Você ama e é amado incondicionalmente, com todos os seus tiques, manias, trejeitos, perdidas e piscadas. Eu sei que é. Tenho certeza disso. Me enche de felicidade saber que recebe tudo que sempre mereceu. Do jeitinho que eu imaginei que seria.
Você sabe também, que isso é tudo que eu sempre quis.
Como me doía não conseguir representar esse papel com perfeição. Querer a perfeição foi, exatamente aqui, meu assassinato. Aqui, eu matei e eu morri.
Como doía não estar em paz como você. Com você.
Eu, agora, continuo em guerra, mas você... você encontrou o retiro.
Você encontrou em outra alma, outra quentura, outro coração que batia rápido, no mesmo ritmo, com a mesma desenvoltura. A poesia leve e gráfica que você já conhecia mas não sabia que podia ser sua, e agora te emoldura
- em tons de terra, verde e mar.
Ressenti que fosse mais leve, menos pesada, pequenina e tão grandiosa. Ressenti, porque era só o que havia em mim. Não havia mesmo, mais nada, porque amor - o próprio -, dele não sobrara. Foi todo embora, escorreu por uma sarjeta suja. A flor da juventude encontrou a luz e o fim, tudo na mesma noite.
A noite é eterna e o tempo não importa mais.
E então não ressenti mais, porque o amor renascia em você. O amor era novo, fresco e tinha cheiro de verão. Renascia em você, mas germinava em mim, o alívio do seu cuidado.
Se a dor fosse sua, ah sim... eu já estaria mesmo no fundo do mar. Mas você nem sabe o motivo de eu não me jogar, sabe?
Essa ferida não é sua, nunca foi.
A água salgada burbulha de vida, te convida pra nadar.
Eu sento na beirada e cravo os dedos na areia, cavo uma ferida rasa, mas dessas que a onda preenche. Observo como você nada, nada, nada lá longe. Eu ainda te vejo no horizonte, eu posso ouvir sua risada, porque você nunca teve medo de ser feliz.
Eu poderia continuar aqui te olhando, cavando. Mas já quase não dá pra te ver. Agora você tá longe demais... Ou será que sou eu?
Sentei aqui por tanto tempo, nem vi que já havia anoitecido.
Pois eu me levanto agora. Ando com minhas próprias pernas, me levo embora, sozinha, pela primeira vez. Verdadeiramente sozinha, mais sozinha do que nunca. Como era pra ser. Mas quando lembro de você... fico feliz.
A felicidade é tão grande que não cabe em mim.
E isso... Só isso mesmo que eu queria falar.